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Espaço e Memórias Dissidentes, por Lucas Reitz


A atual lógica de memoração de espaços e práticas culturais no Brasil passa pelo aval e trâmites dos órgãos de preservação e instituições da arte. Estas seccionam o patrimônio cultural entre bens materiais - edificações, lugares, artefatos e obras de arte; e imateriais - práticas, saberes e fazeres populares. Privilegiam, sobretudo, a memória de matriz branca-europeia e objetos de perpetuação dos laços e práticas heteronormativas nas artes e na arquitetura.

Leo name e Mabel Zambuzzi apontam justamente para a lógica colonizadora desse ato de patrimonialização. Ao passo que bens materiais são compreendidos como valores de matriz europeia, os bens imateriais tendem a compreender as práticas e saberes de matriz africana, dos povos indígenas e da cultura urbana contemporânea, mesmo que essas produzam artefatos materiais em seu processo. O texto "Notas inconclusivas sobre raça, arquitetura e a colonialidade do patromônio" dialoga, desde o contexto soteropolitano, as contradições da preservação patrimonial no Brasil a partir do enaltecimento do Solar do Unhão como bem material edificado da cultura colonização luso-católica na Bahia ante às fragilidades e lutas para o registro do Acarajé como bem imaterial. O texto questiona a instabilidade e tendência homogeneizadora da categoria bem cultural no país. A memória produzida, validada, institucionalizada, não escapa como dispositivo da colonização do saber, dos corpos.

Dentre as memórias silenciadas no processo de patrimonialização, nós LGBTIA+ habitamos o limbo da produção, registro e validação de nossos espaços e práticas. Assim como outras populações e corpos à margem, nossa condição de dissidência transborda na constante ameaça e na fragilidade da permanência dos espaços de sociabilidade e cultura. Então, como pensar a categoria do patrimônio cultural das/para LGBTIA+? Algumas iniciativas, como a discussão do registro da Parada LGBTIA+ de São Paulo e o registro efetivo da cultura LGBTQIA+ como patrimônio imaterial de Uberaba, mostram os avanços da pauta. Entretanto, como apontam Britto e Machado, há algumas lacunas conceituais e silenciamentos intrínsecos na categoria patrimônio cultural (inclusive sobre sua origem colonizadora patriarcal) que impedem e conflituam diretamente para o a preservação da memória LGBTIA+.

Então, como pensar os espaços de memória LGBTIA+ a partir da arquitetura? Como inserir a vivência e uso LGBTIA+ como critérios de eleição e salvaguarda do patrimônio cultural material? A complexidade do patrimônio cuír / LGBTIA+ é vasta. Abrange as festas, celebrações, falas, lugares de luta, memória de violação de direitos, distintas domesticidades, locais de encontro e de manifestação da sexualidade. Como entender e propagar a memória das Casas e estruturas de acolhimento, dos movimentos sociais, da sauna e do banheirão, dos bairros e lugares de proteção? É mais, como fazê-lo sem perpetuar a lógica excludente, museificante e monetizadora que o patrimônio cultural prevê?

Preservar a cultura LGBTIA+ é primordialmente lutar pelo direito à memória. É lutar pelo direito de manter-se constante no tempo ante às ondas que buscam reforçar nossa efemeridade na história.

Nas imagens, Mictório Público de Florianópolis e fachada lateral da sauna Tropikus, Itajai, SC


// Lucas Reitz é Arquiteto e Urbanista, professor e pesquisador.


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